GRUPO DE MARÇO DE 2017 – Último grupo da temporada de inverno e uma grande tempestade

Olá pessoal, depois de anos sem voltar a redigir o antigo Blog, concentrando todos os meus relatos em minha página do facebook http://www.facebook.com/auroraborealdanieljapor, resolvi voltar a escrever neste novo Blog que vai funcionar aqui dentro neste novo site renovado. As postagens antigas até onde havia parado, em dezembro de 2014, exportei para cá e a partir de agora irei postando das mais recentes até chegar onde parei em 2014.

A temporada que se iniciou em setembro no Alaska, teve 6 grupos no total, todos eles com aurora boreal forte em grande parte dos dias e, nesta ultima viagem em março,  ao sair do Brasil eu só pensava em coroar a belíssima temporada com mais luzes no céu.

Ao nos prepararmos para o embarque ainda no Brasil,  pude observar que a previsão do tempo provavelmente seria difícil e daria bastante trabalho. Muito embora não se possa confiar plenamente em previsões com mais de 5 dias de antecedência, muitas vezes ela nos dá um indício de como se dará a viagem e assim ocorreu…

Partimos e encontramos o grupo em Oslo. Os nossos participantes dessa vez eram em sua maioria do Rio, o que achei interessante uma vez que quase sempre a maioria do pessoal vêm do Sul e São Paulo.

Ao voarmos de Oslo para as Ilhas Loføten, belíssimo conjunto de ilhas além do círculo polar e lar dos antigos vikings, que já narrei em outros posts aqui no Blog, pousamos em meio à chuva. As Ilhas loføten são consideradas como uma das mais belas regiões de nosso planeta e, mesmo com tempo fechado, sempre nos empolga e deixa a todos surpresos.

Ao pousar e ir para o Hotel, fiz mais uma pequena checagem na cobertura de nuvens e vi que a suspeita havia se concretizado. A meteorologia nos previa tempo muito fechado com neve caindo e, talvez um buraco no céu a mais de 100 km do hotel em uma “janela de tempo aberto”que poderia durar poucas horas. Além disso a radiação que forma a aurora boreal, outro dado que monitoramos,  estava fraca, prometendo melhorar só nos dias seguintes. Mesmo assim, como sempre, decidi sair e rodamos para longe. O tempo fechado não dava trégua, desistimos pois ainda era a primeira noite e voltamos ao hotel sem vermos nada.

No dia seguinte a previsão de cobertura era a mesma, muita chuva, neve, mas uma “janela” de pelo menos 3 horas com buraco nas nuvens era prevista pelo nossos sistema e aplicativos em uma região chamada Sortland, cerca de 150 km à noroeste do nosso hotel. Além disso a radiação vinda do sol havia  aumentado, estava chegando na Terra.  Ao mesmo tempo,  a previsão informava que o tempo continuaria feio por vários dias em nosso roteiro. Ou seja, aquela seria uma noite importante para o grupo e onde eu não poderia cometer erros. Provavelmente seria uma de nossas únicas noites com chance de aurora e tinha que dar certo! Em todos os mais de 50 grupos anteriores sempre tivemos aurora até com muita facilidade mas nessa atividade não se pode contar com a sorte, principalmente quando o grupo ainda não viu a sua primeira aurora boreal.  Por esse motivo, me tranquei no quarto do hotel decidido a achar o local certo, sem erro, e mostrar as luzes o mais rápido possível ao grupo, sem chance de erro, sem esperar os dias seguintes.

Assim, nos deslocamos em 2 vans para a longínqua Sortland, mais de 2 horas de distância do hotel. Antes de chegar paramos para ir a um banheiro de estrada e logo vi que realmente as nuvens já estavam mais “finas” com pequenos pedaços de céu aberto e estrelas. Aparentemente havíamos feito a escolha certa de local, o que nos encheu de ânimo.

Mais alguns minutos e comecei a observar pedaços maiores de céu aberto, algumas estrelas e pronto. Lá estava ela entre as nuvens, formando um arco q se movia lentamente. Era a primeira aurora do grupo, 20 brasileiros. O legal da aurora em meio ao buraco entre nuvens é que a nuvem sempre dá um realce, um contraste maior na luz da aurora. Parei o carro no primeiro recuo possível. Ali, ficamos em festa por estarmos vendo um pouco de aurora em uma noite de tempo fechado e com pouca probabilidade. Neste trabalho sempre sinto enorme alívio quando o grupo consegue ver sua primeira aurora boreal, afinal, faz parte do meu trabalho e o sentimento de realização em ver as pessoas felizes é indescritível.

Meia hora depois o tempo fechou novamente e decidimos dirigir direto até o ponto planejado, mais uns 30 km à frente. Meia hora depois estávamos lá, diante de um imenso buraco sobre nossas cabeças, cheio de estrelas, com as nuvens apenas nas bordas do horizonte. Nossa decisão se mostrou correta, a galera vibrava nas vans pedindo para parar imediatamente, como sempre ocorre e, assim que foi possível, paramos. Saímos com as luzes da aurora fortes, bem verdes em contraste com as nuvens. Perto do acostamento havia uma pequena estradinha escura e cheia de neve, decidimos ir para lá andando, fugindo das luzes das casas e dos carros que as vezes passavam.

Por mais de 1 horas observamos, filmamos e fotografamos a aurora boreal linda, se movendo bastante e com um gostinho especial. A dificuldade de achar aquele buraco nas nuvens após tanta pesquisa havia dado certo. Era penas a segunda noite em um grupo com previsão de tempo péssima mas, mesmo assim, conseguimos que vissem a aurora “funcionando”, se movendo, e nítida. Sensação de dever cumprido em achar aquele “buraco”no céu com as luzes “dentro”.

No terceiro dia fizemos nosso tour padrão nas Ilhas Lofóten, descer cerca de 150 km contornando vilarejos, montanhas e fiordes até Reine, lugarejo pitoresco, belíssimo e que lembra algo como a “Terra Média” do filme “Senhor dos Anéis”. Mas o tempo ainda estava muito ruim, o que atrapalhou um pouco o trajeto, encobrindo a maioria das montanhas. No meio do caminho paramos no Museu Viking, como sempre fazemos, e onde nossos passageiros podem conhecer um pouco das ruínas e da reconstrução da maior casa coletiva já encontrada da cultura Viking. Ao voltarmos, cansados, fomos direto ao pequeno porto de Svolvaer onde embarcamos no navio Hurtigruten que nos levaria pelos fiordes até Tromsø.

Embora as duas primeiras noites tenham sido difíceis em relação à nuvens e tempo fechado, a terceira noite, em plena viagem de navio, se mostrava propícia à tempo aberto na metade do caminho e a radiação estava boa. Isso significava chance de vermos a aurora de dentro do deck do navio, assim como havia ocorrido com nosso grupo de janeiro. Não deu outra!

Menos de 1 hora após zarparmos fui até a parte posterior do navio – um deck externo que eles mantém apagado para que o passageiro possa ver a aurora com qualidade em caso de avistamento – e rapidamente um arco de luz apareceu. Pelo WhatsApp (ficamos sempre conectados em grupo) avisei para todos se reunirem lá fora e festa começou. Por algumas horas pudemos ver a aurora em diversas formas dançando sobre o navio que navegava mansamente entre as montanhas e fiordes. O show estava tão bonito que em determinado momento o capitão parou o navio e deu um giro 360º  para que todos pudessem ver melhor. O deck ficou cheio por um tempo mas uns 40 minutos depois ficamos apenas nós, brasileiros do grupo, tendo a imensa sorte de ver a aurora navegando, podendo entrar e nos esquentar sempre que quiséssemos. Foi minha segunda oportunidade de ver a aurora do navio, essa bem mais intensa que a primeira e foi muito legal. O sentimento é de enorme privilégio unir duas coisas tão legais como navegar entre fiordes e ainda vendo as luzes do norte.

Veja abaixo o filme que fizemos de nossa experiência no navio.

Algumas fotos daquela noite com a aurora vista de dentro do navio:

Ainda no navio, ao acordarmos na manhã seguinte, observei que o tempo havia piorado na região de Tromsø e que nevaria direto por uns 5 dias, exatamente na mesma época em que lá estaríamos. Reuni o grupo para uma conversa e propus mudar o nosso roteiro e trocarmos a região de Tromsø pela Finlândia. Essa proposta, algo que jamais poderia ser feito em excursões padrão, em viagens de turismo vendidas como pacote fechado, é o diferencial do nosso serviço, é o que nos dá orgulho de saber que oferecemos algo diferente e personalizado. Sabendo que o tempo seria horrível para avistarmos o céu aberto, ao contrário de qualquer outra excursão turística que deixaria nossos passageiros “amarrados” ao roteiro, oferecemos a troca dos hotéis e estadias em Tromso por 2 noites em nosso chalé em Kilpisjarvi na Finlândia. Isso significava que iriamos 2 dias antes para o chalé e ficaríamos 4 noites ao invés de 2.

Às 14 horas, quando desembarcamos em Tromsø, pegamos as vans e fomos direto para Kilpisjarvi, 4 horas de estrada de lá. Esse tipo de decisão e alteração de roteiro definitivamente não é possível de ser feito por qualquer agência de viagens mas, em se tratando de algo como aurora boreal, achamos imprescindível ter essa flexibilidade logística em mãos. Nosso diferencial e o que nos parece essencial,  é o fato de dirigimos os nossos veículos, decidirmos sempre para onde ir e a hora de ir e voltar ao hotel.. Em uma viagem como essa ficar amarrado as diárias de hotel em determinada cidade, ter as vans dirigidas por motoristas locais que apenas trabalham como meros motoristas, com horários e limites engessados, não dá. Perderia metade da graça!

Dessa forma saímos do tempo horroroso em Tromso e chegamos em Kilpisjarvi com tempo aberto, tendo feito a decisão correta, fugindo da nevasca e dependendo apenas da aurora fazer o trabalho dela. Sob o céu límpido e estrelado de Kilpisjarvi, lugarejo minúsculo e maravilhoso para a observação das luzes, que descobrimos e levamos pessoas tantos anos, na maioria das vezes a aurora aparecia sobre nosso chalé. Assim esperamos que acontecesse… Infelizmente, embora com o céu cheio de estrelas, a aurora foi tímida, formou apenas um pequeno arco sobre uma montanha próxima mas no que se podia fazer, fizemos.

Na manhã seguinte o grupo fez o já tradicional passeio de moto neve, snowmobile, por cima do lago congelado até a triplice fronteira Noruega x Finlândia x Suécia. A noite chegou e mais uma vez o céu estava aberto, só que a radiação formadora de aurora boreal continuava fraca, nos deixando de mãos atadas. Raramente vemos o céu estrelado sem a aurora boreal, na maioria das vezes ou a aurora ta fraca, média ou forte, mas sem luz alguma eu raramente tinha visto. A radiação estava mesmo decepcionando, mas os dias de aurora logo no início da viagem e no navio já haviam garantido a alegria e o moral elevado do grupo. Nossa parte havia sido feita, achamos aurora em uma noite quase impossível, depois deixamos uma região sob nevasca e trocamos o grupo para outra com céu estrelado. Mais do que isso não podíamos fazer, o grupo sabia disso e o astral se manteve lá em cima.

Naquele penúltimo dia fizemos o tradicional comes e bebes de despedida da viagem, separamos a área de spa, sauna e jacuzzi para o grupo. Ligamos o som, a lareira, montamos a mesa com queijos, vinhos, e a festa começou. Fomos todos para sauna e, como sempre, de lá corremos para o lago congelado sob uma temperatura de 10º c negativos, voltando depois correndo para uma grande jacuzzi onde podemos nos recobrar do susto. Essa atividade final em nossos grupos é outro grande diferencial e já virou tradição. Nela confraternizamos, brincamos, o pessoal se supera ao mergulhar no lago congelado e depois relaxa na jacuzzi. Muitas vezes fazemos isso com a aurora boreal no céu, como irei descrever em outro post de grupos anteriores. Neste dia, mesmo sem ela no céu, ficamos até tarde finalizando a viagem

Naquela madrugada  o tempo feio que vinha da Noruega, local que havíamos deixado, chegou ao chalé. A nevasca caia sem parar enquanto estávamos nos quartos e, pela manhã, o cenário era assustador. A neve continuava a cair em alta quantidade e velocidade, à ponto de mal poder vermos os chalés vizinhos no condomínio. Era o que chamamos de washout, branco total, se tornando complicado até mesmo andar entre nossos chat´s que ficam lado a lado. Ilhados, observávamos toneladas de neve caindo, quase um metro de neve fresca se acumulando nas entradas, abaixo da janela. Sinistro!!!  Ao mesmo tempo incrível, mais uma experiência indescritível e engrandecedora para o grupo tropical que passava pela maior experiência polar da vida. Um misto de receio em como sair dali e curiosidade aventureira tomou conta de todos. Acho que foi a maior nevasca que eu já havia visto, ali no chalé com certeza!

Veja neste link do facebook.

Posted by Daniel Japor on Sunday, March 26, 2017

O dia passou, a nevasca continuou e começou a me preocupar. Precisava retornar com o grupo para Tromso, na Noruega, na manhã seguinte e não sabia se poderia dirigir naquela condição pois a estrada em certas condições é fechada pelas autoridades. Na hora do jantar parou de nevar e veio o alívio. Caminhei até a estrada uma vez que não dava pra sair com a van naquelas condições antes de um trator passar. Lá chegando vi carros da policia no meio da estrada, e não deu outro, me avisaram que a mesma estava fechada na direção da Noruega, em ambos os lados, por grande acumulo de neve. Não sabiam quando iria reabrir e isso gerou uma pequena tensão. Ao dormir observei pelos nossos sistemas de previsão que a nevasca deveria parar na madrugada e isso aconteceu. Assim que acordei olhei pela janela e estava tudo calmo mas com uma quantidade de neve impressionante cobrindo tudo. Precisava voltar pra Noruega, sair dali, mas naquelas condições não dava. Os proprietários do condomínio de chalés onde sempre ficamos possuem um trator para essas situações e eu sabia disso, o que me deixava tranquilo. Falei com Pauli, que já é um amigo, ele que ligou a maquina e passou diversas vezes pela ruazinha que ligava os chalés até a rodovia. Depois de uma meia hora  já podíamos sair de lá. Me despedi do amigo  e saímos bem devagar com a van até a estrada que já havia sido reaberta. Assim, bem tranquilamente fomos deixando aquela região de tempestade, voltando a Tromsø onde no dia seguinte pegaríamos o avião para Oslo, finalizando nossa viagem.

Foi mais um grupo sensacional que, mesmo pegando um tempo terrível, soube aproveitar os dias com a aurora boreal no céu, valorizou até mesmo a beleza da tempestade, curtiu o tempo todo e voltou nos deixando satisfeitos pela viagem e grande aventura vivida. Foi nosso ultimo grupo da temporada 2016/2017, coroando com uma tempestade polar um ano com muita aurora no céu, em todos os nossos grupos, mantendo nosso 100% de aproveitamento em cerca de 60 grupos de brasileiros buscando a aurora na ultima década.

A partir de setembro se inicia a temporada 2017/2018, com as tradicionais saídas para o Alaska, Lapônia, Svalbard. A partir de agora irei escrever nos próximos posts sobre as viagens anteriores a essa, até chegar na de dezembro de 2014, quando parei de escrever no Blog. Além disso, nas saídas futuras irei buscar atualizar os relatos de viagem em tempo real, mesmo durante o acontecimento de cada expedição. Espero que gostem e nos acompanhem aqui.

Abraço

Daniel Japor

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