VIAGEM EM BUSCA DA AURORA BOREAL – NOVA TEMPORADA – SETEMBRO DE 2014

Como preparação antes da viagem, como sempre observamos a previsão de tempo estendida e a possível cobertura de nuvens durante a nossa estadia no norte da Noruega. Além disso, monitoramos as atividades solares formadoras da aurora boreal, previstas pelo ciclo solar de 27 dias. Finalmente,  no dia 14 de setembro partimos de Guarulhos rumo a Tromso com pernoite em Oslo.
Éramos 16 pessoas unidas no mesmo sonho, vermos a aurora boreal em sua plenitude. Por mais que eu possua anos de experiência na busca pelo fenômeno, a cada novo grupo a ansiedade é grande, pois  nunca podemos garantir o sucesso deste fenômeno natural.
Mesmo após mais de 20 grupos nos últimos anos, com erros e acertos que nos fizeram crescer, a possibilidade remota de não encontrarmos a aurora – embora nunca tenha acontecido – sempre incomoda e faz parte!!
OSLO – DIA 2
Chegamos a Oslo na manhã seguinte e fomos conhecer a cidade. Naquela mesma noite, antes de dormirmos, um de nossos participantes me interfonou dizendo que sua esposa havia passado mal durante a chegada na Noruega e que seria melhor retornar com ela ao Brasil. Pego de surpresa e mesmo tentando atenuar a situação, observei que seria inevitável a desistência. Nestes momentos precisamos manter a calma e assim foi feito. Voltei ao aeroporto, conseguimos vaga para ele em um voo naquele mesmo dia. Longe de casa, saúde e segurança falam mais alto. Dessa forma nos despedimos com pesar do casal que tanto queria conhecer as luzes e seguimos viagem para Tromso, a capital da aurora boreal.
TROMSO – DIA 3
Assim que pousamos em Tromso eu já sabia que a noite seria promissora.  Dias antes a Terra havia sido atingida por duas explosões consecutivas de radiação vinda do sol, formando auroras fantásticas. Aquela seria a última noite sob influência das tais radiações e o índice Bz, que indica a atividade geomagnética, mostrava que grande parte da radiação que chegava a Terra estava sendo atraída, podendo formar grandes auroras naquela noite… Além disso não havia nuvens…
Com essas informações, embora sabendo da grande possibilidade de avistamento da aurora boreal, preferi não dar muitas informações ou esperanças ao grupo, de forma a tentar fazer uma surpresa.  Combinei de sair do hotel as 19 h para que pudéssemos chegar no local as 20 h, ainda antes de escurecer nesta época, mas de forma a aproveitar cada minuto do provável show, desde o início.
Decidi levá-los a um dos meus lugares prediletos por que, além de ser próximo à Tromso, 40 km, é totalmente aberto, sem montanhas embarreirando a visão do céu. Local perfeito em dias sem vento, como aquela noite. Quando venta, por ser muito exposto,  o frio fica insuportável por ali.
Chegando cedo, seguramos a ansiedade aguardando o sol se pôr até as 9 da noite, para enfim começarmos a vasculhar o céu em busca da primeiro sinal. Junto ao surgimento das primeiras estrelas, nosso companheiro de viagem Victor Pereira, olhou para uma pequena mancha no céu e exclamou:
– Daniel, será que aquilo é uma aurora?
Olhei, parecia uma nuvem, mas em dias sem nuvens, aquilo era típico de uma aurora sendo vista na penumbra, com o céu ainda parcialmente escuro. Apontei a câmera para me certificar e não deu outra, era ela… Naquele momento começamos a ver a aurora boreal, cerca de 5 horas após chegarmos na cidade, apenas.
Começando o show
O céu escureceu de vez e o show começou. Primeiro formou-se o arco na direção norte, bem como esperávamos, e todo o grupo começou a delirar diante da estréia. Cerca de 1 hora depois, a aurora começou a pegar mais força, atingindo o nível 7 (vai até o 10) de uma das escalas que medem a quantidade de plasma ou energia ativa no campo magnético.
Eu e a primeira aurora da temporada

 

 

 

 

 

 

 

O grupo contemplando as luzes

Com a intensificação da aurora boreal, o que antes parecia um arco quase imóvel, começou a se movimentar, dançar, balançando sobre nossas cabeças, formando o que podemos chamar de aurora boreal clássica. Com o passar das horas a lua minguante ficou mais alta e propus ao grupo trocarmos de local para um belo vale onde poderíamos encontrar um lugar mais escuro.
Naquela noite acabamos indo a 4 lugares diferentes, vendo a aurora boreal por horas, até não aguentarmos mais. Ela atingiu o nível 8 em seu momento mais forte, quando podíamos vê-la se movimentar de forma frenética bem acima de nossas cabeças.
Comemoração

 

 

Expresso da Aurora Boreal brasileiro no lugar certo
DIA 4 – TROMSO
No segundo dia a previsão não era das melhores. Embora o índice Bz indicasse boa probabilidade de atividade magnética, o plasma vindo do sol já não era tão forte e a previsão da cobertura de nuvens desanimava um pouco.  A região de Tromso e de todo o norte da Lapônia estavam encobertas. Por outro lado, segundo nossa pesquisa, estava soprando um vento típico que indicava que o litoral seria o melhor lugar para uma possível abertura nas nuvens.
Assim dirigimos em direção oeste, rumo a região do litoral do Oceano Ártico. No meio de um vale sem vento avistei algumas estrelas pelo vidro do micro ônibus, decidi parar em um local protegido para fazermos uma fogueira e preparar um salmão fresco que havia comprado horas antes.
Mal começamos a assar o peixe e nossa companheira de viagem, a sempre alerta Margarida Afgoune, gritou que havia um arco sobre nós. Saindo da luz da fogueira, que atrapalhava a visão do céu, pudemos observar que a aurora havia voltado, no segundo dia consecutivo, em uma noite onde achamos uma espécie de buraco nas nuvens. Conseguimos nos manter em tempo aberto e com a aurora por algumas horas mas, mesmo tendo fugido das nuvens, o tempo aberto ainda estava bastante enevoado. Um véu de umidade cobria o ar, embaçando a lua e também a aurora. Mas, mesmo assim, como estava forte, foi outra noite fantástica.
Salmão e aurora boreal

 

DIA 5 – TROMSO
O dia começou perfeito. Como sempre fazemos, separamos o dia com o tempo mais bonito e aberto para conhecermos Sommaroy, uma vila de pescadores bucólica e isolada em uma península do oceano Ártico. Sempre incluímos esse passeio no roteiro para que nosso participante possa conhecer, além da aurora, o visual clássico e de cartão postal da Noruega, com seus fiordes, montanhas e casinhas coloridas. O passeio foi perfeito, com o tradicional almoço no Arctic Hotel de Sommaroy, onde sugerimos a todos o Halibuth, peixe típico da região.

 

 

A previsão de aurora boreal para este dia belíssimo era ótima, o site da NASA alertava para forte probabilidade de atividade geomagnética nas altas latitudes, novamente o índice Bz ajudando. O tempo estava aberto, mas a previsão indicava que a partir das 20 horas iria fechar novamente.
Por outro lado, estudando o mapa de nuvens percebi que se dirigisse cerca de 80 km em direção noroeste, uma área praticamente desabitada mas belíssima, provavelmente conseguiria fugir das nuvens e da nebulosidade de foggy até umas 2 h da manhã. Mais uma vez a previsão se mostrou correta.
Já no caminho ficou claro que estravamos conseguindo nos afastar da região com nuvens. Adentramos em uma área deserta com estrada de chão, parecendo – no aquecimento do veículo e com a pouca luz que sobrava do dia – que de repente tínhamos chegado ao interior do Brasil com suas estradas de terra batida. O sol se punha no mar, o degradê era incrível, aquele dia que havia começado tão bem em Sommaroy poderia ser histórico.
Paramos na beira do fiorde em uma área completamente isolada onde tínhamos apenas um poste de fiação por perto como sinal de civilização.  Até meu ultimo sinal de 3G pelo caminho, o App que utilizo para acompanhar a radiação de hora em hora, indicava que teríamos uma aurora forte. Ao chegarmos no isolamento,  não tínhamos qualquer sinal de celular, muito menos 3G, só nos restava aguardar pra ver se o show rolaria…

Após 1 hora conversando e aguardando, o espetáculo começou. Do outro lado do fiorde, por trás da montanha a cortina verde apareceu do nada, com força total, se movimentando como um teclado de piano na vertical, atravessando o céu de lado a lado. Era uma aurora assustadora, muito nítida,  forte, uma das mais espetaculares que eu já havia visto em muitos anos buscando as luzes.

Mesmo já tendo visto as Luzes do Norte por dezenas de vezes, dava para perceber que aquela era uma das mais especiais… Em alguns momentos parecia que poderia ser tocada, que estava em baixa altitude, mesmo estando, na verdade, a pelo menos 100 km de altura, nos limites da atmosfera….

Corri para longe do grupo, posicionei minha câmera para fotografar 1000 fotos em sequência, de forma a fazer um filme em timelapse. Deixei ela lá clicando sozinha e voltei para o lado do grupo que, em êxtase, tinha o privilégio de ver uma aurora boreal de altíssimo nível.

Por cima de nossas cabeças ela balançava com velocidade, rodopiava, aparecia inclusive na cor rosa em sua base, algo bem difícil de ser visto a olho nu. A cada movimento o grupo vibrava de emoção e alegria… Depois fiquei sabendo que a aurora boreal naquela noite chegou ao nível 9 de uma escala da Nasa, quase o nível máximo…

QUE DIA COMPLETO E FANTÁSTICO!

Após cerca de 2 horas retornei até onde estava minha câmera, no meio do mato, e interrompi a sequência de fotos, ansioso para ver o resultado. Infelizmente, logo percebi que quase todas as 350   fotos que haviam sido clicadas em sequência estavam perdidas, o forte sereno havia embaçado a lente… Fiquei bastante chateado na hora, havia perdido o que seria meu melhor filme da aurora boreal… Mesmo assim o registro mais importante é o da experiência vivida por todos que, com certeza, jamais serão apagados… Mesmo assim,  algumas fotos se salvaram, como essas abaixo:

 

 

 

Parte do grupo, ficou fora de foco mas valeu
DIA 6 – TROMSO
Durante o dia livre o grupo pôde dar mais uma volta pela cidade para conhecer os Museus, o teleférico e a cidade.  Para a noite a previsão, dessa vez, era muito difícil, tempo muito encoberto. Mais uma vez saímos em busca da aurora mas não encontramos tempo aberto, a radiação vinda do sol também estava muito fraca. Por outro lado, paramos em uma praia, onde caminhamos na areia e mergulhamos as mãos em pleno oceano glacial.
DIA 7 – VIAGEM PARA KILPISJARVI – FINLÂNDIA

No dia em que completamos uma semana incrível de viagem, partimos rumo a Kilpisjarvi, cidadela localizada a 270 km de Tromso, tradicional destino deste roteiro exclusivo que criamos há anos e de forma pioneira no Brasil.  Percorrendo os fiordes e a cadeia de montanhas Lyngen, algumas horas depois chegamos a fronteira onde sempre tiramos a tradicional foto na placa de entrada na Finlândia.

Tradicional foto que sempre fazemos com nossos grupos nas placas da fronteira

Kilpisjarvi se localiza no extremo norte da Lapônia finlandesa, na beira do Lago Kilpisjarvi, considerado o coração da Lapônia, fazendo fronteira com 3 países, Suécia, Finlândia e Noruega. A região, além da geografia típica, possui um dos céus mais límpidos do planeta, motivo pelo qual sempre a incluímos em nosso roteiro desde o ano de 2010.
O tempo estava fechado, sem previsão de melhora, mas para o grupo que já havia presenciado tanta aurora boreal, isso não era um problema. Chegamos ao nosso chalé e fizemos o jantar que está sempre incluído no pacote. Dessa vez trocamos o bacalhau pelo Halibuth com cogumelos.

 

Nosso Expresso da Aurora Boreal em frente ao Chalé
DIA 8 – TROMSO (ultima noite)
Após uma noite instalados no típico chalézinho Lapão, retornamos a Tromso, onde pudemos chegar ainda no meio da tarde, sem deixarmos de passar por um monte de renas… 🙂
A noite, o tempo continuava fechado, dessa vez ainda pior, com previsão de neve. Para nós, que havíamos tido tanto contato com a aurora boreal, a possibilidade de neve no verão (fim de verão e chegada do outono), foi um atração a mais e assim saímos do hotel a noite, sem qualquer pressão. Dirigi até um vale cercado de montanhas altas, de forma a tentar que os cumes pudessem embarreirar algumas nuvens e abrir alguns buracos no céu. Essa estratégia as vezes dá certo mas nessa noite só encontramos flocos de neve caindo, os primeiros do outono que chegaria no dia seguinte. Foi uma pequena festa para os brasileiros, alguns nunca tinham visto a neve caindo.
DIA 9 – ILHA DE SVALBARD

Acordamos e nos dirigimos ao aeroporto para o destino final, a Ilha de Svalbard. Pedaço de Terra isolado no extremo norte do Planeta, o arquipélago possui a cidade mais ao norte do mundo, Longyearbyen. Terra dos ursos polares, geleiras, tundra sem árvores e geografia parecida com a Antártica, a ilha é nossa cereja do bolo no fim do roteiro, onde nosso participante pode concluir a viagem unindo a aurora boreal no norte da Noruega, a noite isolada no chalé da Lapônia e por fim conhecer a fronteira da calota polar norte.

Chegamos, fomos para nosso hotel e o grupo pôde passear pela cidadezinha mais isolada e polar do mundo.

Chegada em Svalbard
DIA 10 – O URSO POLAR E A CIDADE FANTASMA
Na manhã do decimo dia o grupo embarcou no passeio de barco rumo a geleira e a cidade fantasma chamada Pyramiden, abandonada pelos russos em 1998, e deixada como estava, intacta até os dias de hoje, tomada pelos pássaros. No caminho, próximos a geleira, novamente algo incrível aconteceu. Um urso polar descansava sobre pedras, próximo a geleira e ao barco, fazendo com que todos pudessem vê-lo, fotografá-lo. Até mesmo gritos foram dados pelo pessoal no barco, para que o bicho se movesse e levantasse….Após anos com este mesmo roteiro, esse foi nosso primeiro grupo que conseguiu ver o urso polar neste passeio.
Abaixo foto da cidade fantasma abandonada pelos russos com o busto de Lenin de frente pra geleira ao fundo…
Embora eu já tivesse visto esses animais tão raros na natureza, havia sido em uma expedição não turística de snowmobile (moto de neve), bastante dura e arriscada, em fevereiro passado.  Não imaginava que esse grupo poderia ter esta sorte grande, vendo o bicho de forma segura e confortável… Espero que isso se repita novamente no futuro!
DIA 11 – O RETORNO EM BUSCA DO URSO
Nessa manhã enquanto a maioria do grupo ficou em Longyearbyen, fui convidado pelo amigo Francisco Mattos – um brasileiro produtor e cinegrafista da natureza que reside na Ilha – a voltar a geleira onde estava o urso na manhã anterior em sua lancha. Infelizmente o barco era pequeno, somente uma pequena parte do grupo pôde me acompanhar.
Com o mar bem pesado, cheio de ondas, a lancha pulava e batia sem parar e dessa forma aceleramos até a geleira. Ao contrário do navio da manhã anterior, a lancha, bem mais ágil, consegue entrar no meio do mar gelado, cruzando o gelo flutuante, de forma ágil, nos trazendo uma nova experiência também inesquecível.
Chegando no lugar o urso não estava mais por lá mas estávamos bem preparados para fotografa-lo…rsrsrs
Capitão Francisco Mattos, o amigo brasileiro, gaúcho, gremista, radicado no Ártico

 

 

 

Vasculhamos toda a região sem sinal dele mas, para nossa surpresa, na volta, ao chegarmos ao píer, nos esperava uma velha foca, enorme e cansada, dormindo sobre a madeira…  Nem sei como ela conseguiu pular ali em cima… 🙂

 

Para quem quiser depois conhecer o incrível trabalho de fotografia e imagens do brasileiro Francisco Mattos no Ártico, segue o link, as imagens sano de tirar o fôlego:
http://www.shutterbirdproduction.com

DIA 12 – INÍCIO DA LONGA VOLTA PARA CASA.

Nos despedimos do Ártico e voamos para Oslo, com escala em Tromso. Chegamos no hotel e na manhã seguinte voamos para o Brasil, terminando nossa viagem.

Ultima foto
Acabei me alongando no relato pois foi com enorme prazer que revivi esses momentos. Espero que gostem e caso tenham interesse em participar de futuras viagens conosco, neste roteiro único e pioneiro em nosso País, basta nos enviar um email para contatogeotrip@gmail.com10

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *